A Donzela de Ferro

Capítulo I - Crime, sangue e investigação


Os maiores e mais estranhos fatos sempre nos ocorrem quando estamos no momentos mais vagos de nossas mentes.
Ca estava eu lendo meu jornal durante as únicas horas que eu poderia me dedicar a tal feito, como de costume a luz do meu lampião e o calor de minha lareira me acompanhavam. Meu velho cachimbo também não poderia faltar, pois quando os meus olhos fitavam e rolavam por entre as noticias policiais, eu sentia certa ansiedade e interesse incomensurável.
Mas está noite, foi diferente, aparentemente em um museu a algumas quadras de minha residência um assassinato misterioso ocorrera na noite anterior. Pena não ser o frequentador mais assíduo do mesmo, pois adoraria ter visto ainda tudo fresco.
Bem, o museu de História Mundial inaugurado no ano de mil oitocentos e cinquenta já havia recebido varias peças de cunho importante para a história da humanidade em seus seis anos de existência. Mas uma delas, recebida na semana passada, é uma das que mais causaram espanto na cidade. O famoso instrumento de torturas e execuções "Donzela de Ferro". A cidade ficou perplexa, e religiosos fanáticos disseram que aquilo dera obra do demônio e queriam a retirada do artefato do local. 
O grande titulo "Horror e sangue no museu" destacava-se no jornal. Pobre vítima, o zelador Adolphe, enquanto limpava o museu durante o inicio da madrugada estava dando seus últimos suspiros para encontrar-se com a morte.
O mais intrigante era a forma como os fatos se ocorreram, pois toda e qualquer abertura no museu seria impossível, e todo o museu somente era trancado após a polícia vistoria-lo, para evitar eventuais furtos dos artefatos do museu. Intrigante também que o museu não possui porões ou esconderijos.
Como Adolphe poderia ter sido assassinado, foi o pensamento que não me saia da cabeça naquela noite após a leitura do jornal.
Na manhã seguinte dirigi-me ao museu, cercado pela polícia e repórteres, e adentrei-me no local do crime. Apesar de ser o segundo dia após o crime, aquela manhã de dezenove de junho ainda cheirava à morte e quando me aproximei do artefato mortal, o sangue ainda o manchava.
Surpreendi-me com a imensa e intimidadora donzela pois ela não seria, no seu sentido figurativo, uma donzela que cavalheiros poderiam levar a uma dança, pois por baixo de seu vestido sombrio e gélido havia lanças pontiagudas e mortais cheias da essência da morte. Similar a um sarcófago, a donzela era realmente perturbadora.
- Se não é o grande senhor Marryadoc - disse uma voz rouca e grossa.
- Senhor Herald, como vai? - respondi em tom de desagrado
- Vejo que não perdeste tempo em vir atrás desta intrigante situação, me diga o que achou de tudo isso?
- Inconclusivo, somente isto senhor Herald, inconclusivo.
Esquivei-me do senhor Herald com estas palavras e dediquei-me, após este inesperado encontro, a procurar pelo inspetor-chefe Duplarge.
Senhor Herald, Adamastor Herald, era meu maior e mais irônico rival na academia de ciências forenses. Quando nossos mestres indagavam seus alunos apenas ele e eu, como um embate, queríamos responder para saber quem seria o melhor. E por mais irônico que seja um completava a resposta do outro terminando assim em um empate, e assim seguiu-se ate os dias de hoje.
Após rodear tantos policiais e repórteres encontrei em um canto, fumando seu charuto, o inspetor-chefe Duplarge para começarmos a discutir os fatos.
- Bom dia inspetor Duplarge
- Bom dia senhor Marryadoc, já estava estranhando que não aparecesse. Acreditei que o veria ontem aqui no museu.
- Infelizmente, meu caro inspetor, fiquei sabendo do caso apenas ontem pela leitura do jornal O Diário e como só o leio durante a noite não pude vir antes.
- Entendo, e o que conseguiu coletar desde que esta aqui pois vejo que seu "amigo" senhor Herald também esta aqui.
- Sim, já tive o "prazer" nostálgico de cumprimentá-lo. Mas sobre o que coletei deste local foi apenas o que li do jornal. Ainda não tive coragem de examinar a cena do crime sem que estivesse por perto.
- Pois bem vamos até lá então.
- Claro, mas gostaria de saber um pouco mais sobre a vitima.
- Bem seu nome era Adolphe Paustre, tinha cinquenta e seis anos e pelo que se sabe era um homem solitário e vivia para o seu trabalho de zelador no museu. Até então é improvável que tenha inimigos.
- Muito menos amigos eu presumo - interrompeu-nos senhor Herald.
- Senhor Herald, como vai? Presumo que já tenha cumprimentado o senhor Marryadoc.
- Sim já havíamos nos visto antes inspetor Duplarge. Bem o que eu não entendo é como tudo isso possa ter ocorrido.
- Talvez uma vingança - disse eu pensando nas mais simples possibilidades - Pouco se sabe sobre o zelador Adolphe Paustre senhor Herald, logo há certa chance.
- Ora senhor Marryadoc nunca foi de seu feitio dar possibilidades sem uma evidência em suas mãos.
- O fato é, senhor Herald, que evidências ainda não se revelaram, somente um artefato manchado com sangue de um homem que apenas cumpria seu dever.
Sem entender, o inspetor Duplarge acompanhava nosso embate intelectual quando sem mais timidez interrompeu-nos:
- Senhor, seria melhor acompanharmos os fatos e o crime em si do que entrarmos em uma disputa.
- Concordo inspetor Duplarge - Exclamei com todas as forças de meu pulmão.
- Bem senhores partirei em breve mas primeiro se o inspetor me autorizar irei procurar evidências ainda ocultas.
- A vontade senhor Herald.
- Obrigado e até breve cavalheiros.
- Até senhor Herald.
- Inspetor Duplarge, gostaria de saber se já enterraram o corpo do zelador.
- Não senhor Marryadoc, por quê?
- Gostaria de verificar o corpo da vítima.
- Claro, o corpo está no necrotério da cidade eu o acompanho senhor Marryadoc.
- Obrigado.
E assim seguimos para o necrotério para verificarmos o corpo do zelador.


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